Desenho de Torneios: liga ou mata-mata?

Em todo início de temporada, aquelas mesmas perguntas voltam: será que o mata-mata deveria voltar ao Campeonato Brasileiro de Futebol? Será que o formato de pontos corridos já está degastado? Será que não poderíamos fazer uma fase de grupos e outra eliminatória?

A gestão esportiva moderna surgiu quando consumidores estavam dispostos a pagar para assistir competições esportivas. Um organizador de torneios, na tentativa de fazer um bom trabalho, deve pensar em um modelo que crie a maior competitividade possível entre os oponentes. Vale lembrar então, do conceito de equilíbrio competitivo: por ser uma medida de desvio-padrão entre porcentagem de vitórias, quanto menor esta medida, melhor, pois maior a imprevisibilidade do resultado e maior a atratividade da partida.

Um primeiro tipo de competição é tratado por Gordon Tullock, em seu estudo “Efficient Rent Seeking”, dos anos 60. É chamado de “winner-takes-all contest”, ou, em tradução livre, o vencedor leva tudo. O nome é autoexplicativo. Cada competidor utiliza um nível de esforço (e) para ganhar. Sua probabilidade de vencer depende da razão entre seu esforço e a soma dos esforços de todos os competidores.

O nível de habilidade dos competidores determina o resultado final. Sendo o retorno esperado de participar de uma competição calculado como:

Retorno esperado =

[(Probabilidade de vitória)*(Valor do prêmio)] – Nível de Esforço

Caso todos os adversários tenham mesmo nível, ou nenhum deles sabe qual o nível de habilidade dos outros, assume-se que cada um tentará maximizar seu retorno esperado. Se os competidores saibam o nível de habilidade uns dos outros, e que tenham níveis distintos, alguns terão mais, outros menos incentivos para vencer. Assim, atletas mais fracos usarão um nível de esforço menor por saber que não possuem chance de vitória. Atletas mais fortes, que sabem que sua probabilidade de vencer é grande, também usarão um menor nível de esforço. Como resolver isso? Com incentivos financeiros.

Nas aulas que dou no curso interno para a entidade universitária FEA Sports Business, utilizei a aula de atletismo para explicar a questão. Imagine que Usain Bolt vá participar da final dos 100m de uma competição mais fraca. Seus oponentes sabem que o Bolt está ao seu lado e que suas chances de vencer são pequenas. Assim, eles usam um baixo nível de esforço. Bolt, por outro lado, sabe que seus competidores possuem nível mais fraco do que o dele. Assim, ele não usará o nível de esforço de uma final de uma Olimpíada (que presumimos que seja o máximo), e sim um nível bem menor. O resultado é uma competição mais fraca.

Existem pelo menos duas possíveis maneiras para o organizador deste campeonato melhorar a competitividade. Uma delas é premiar um competidor pelo seu desempenho absoluto, não relativo. Ou seja, se propormos ao Bolt que ele ganhará um prêmio se correr abaixo de uma marca específica, ele muito provavelmente se esforçará mais. Outro é aumentar o prêmio financeiro ao vencedor. Estudos de Maloney e McCormick (2000) indicam que dobrar o prêmio médio leva a uma queda no tempo médio de 2%. Dobrar a diferença de prêmio do primeiro ao último colocado (spread) leva a queda no tempo médio de 4%.

Mas será que os atletas só competem por prêmios financeiros? Obviamente que não! Eles também consideram riscos, em suas mais variadas formas. Assim, estruturas alternativas de competições, além do winner-takes-all, são o formato de liga (todos contra todos) e o mata-mata.

A escolha da estrutura de competição depende de pelo menos dois fatores. Um deles é os motivos dos organizadores para existir a competição. O formato de liga é melhor para os competidores: para todos, fortes e fracos, existirá um número garantido de partidas. Ele é menos arriscado: o vencedor será aquele com uma melhor performance média, mais regular. Também evita que uma apresentação ruim cause uma eliminação precoce.

O segundo motivo é a preferência dos espectadores. O formato de mata-mata tende a produzir mais “zebras”. Ele é bem mais atraente e excitante aos espectadores. Talvez seja por isso que jogos universitários (aqueles de bom nível, claro) são tão interessantes de assistir: quando os competidores começam a jogar, somente um deles passará a próxima fase. Neste formato, o nível de esforço dos competidores é bem maior, garantindo um melhor espetáculo.

Assim, podemos concluir que geralmente, se o campeonato é organizado pelos competidores, o formato de liga é o mais escolhido. Caso o organizador seja independente, ele tende a escolher o formato mata-mata, pelo maior apelo aos espectadores.

No Campeonato Brasileiro citado acima, é claro que um formato de mata-mata seria muito mais interessante para nós, espectadores. Mas na perspectiva de um clube, é mais complicado. Uma previsão de receitas seria bastante incerta no final da temporada. Ou o time pode ganhar muito se classificar (tanto em renda de bilheteria, quanto possíveis patrocinadores pontuais), ou ele deixa de ganhar aquela receita prevista, caso não se classifique (e fique parado até o ano seguinte).

No próximo texto, trarei um pouco da literatura de Economia do Esporte para falar de público nos estádios. Quais são os principais determinantes? Veja na próxima semana!

Por Albert Liu

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Imagem Capa – Fonte: http://www.flamengo.com.br/site/noticia/detalhe/18268/flamengo-e-cruzeiro-expoem-tacas(adaptada)
Imagem 2: Imagem 2: Propriedade BPM Marketing Esportivo

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