O Impacto de Megaeventos Esportivos

A Copa do Mundo de Futebol já passou e os Jogos Olímpicos estão chegando. Um tema que necessita debates é o impacto de megaeventos esportivos. Será que eles realmente afetam a economia de um país?

Quando uma nação pensa em sediar um megaevento esportivo, ela geralmente recorre a uma grande consultoria para realizar estudos de potenciais ganhos. O governo quer ouvir boas notícias. A consultoria, além de lucrar bastante com o estudo, não quer “perder o cliente”: explicitará no relatório todos os ganhos possíveis e impossíveis. As duas partes ficam felizes e todos já conhecem os “resultados”: cifras enormes de lucro, melhorias de infraestrutura, mirabolantes usos para as novas arenas. Não podemos deixar de citar o prestígio nacional e internacional ganho pelo governante por trazer um grande evento ao país.

Os argumentos a favor são sempre os mesmos: haverá um grande impulso na economia; a construção de estádios e infraestrutura criará empregos, atrairá turistas e desenvolverá as economias locais. A inspiração destes argumentos vem de um economista: John Maynard Keynes.

Você já deve ter ouvido este nome em alguma aula de história. Keynes foi a inspiração do New Deal, plano econômico de Roosevelt para a saída da crise de 1929 nos Estados Unidos: o governo deveria realizar investimentos na economia para recuperar a confiança dos agentes. Promover obras públicas, por exemplo, geraria emprego e daria dinheiro para trabalhadores. Estes consumiriam seus ganhos em bens e serviços, fazendo a economia voltar a circular. O ciclo se repetiria até que a atmosfera voltasse ao normal, gerando os chamados efeitos multiplicadores. É neste último conceito que a defesa dos Jogos se apoia.

Existem vários furos ao se usar a teoria keynesiana para defender megaeventos esportivos. O primeiro deles é sobre investimento público, que é um enorme gasto extra e causa déficit em suas contas. Para cobrir este déficit, o governo imprime mais moeda. A maior quantidade dela, quando usada nos gastos operacionais, leva a maiores níveis de inflação, pois o excesso de moeda encarecerá bens e serviços de consumo. Uma maior inflação leva a novas desconfianças (vide Brasil) e a retração de investimentos.

A decisão entre construir um estádio ou moradias populares é o segundo e principal furo, explicitado pelo conceito econômico de custo de oportunidade: ao se fazer uma escolha, você perde outra provavelmente boa. A teoria keynesiana não considera custos de oportunidade. É claro que na época da crise de 29 não havia escolha melhor, mas em tempos do novo milênio, existem escolhas muito melhores, pensando em Grécia (2004) e Brasil (2016).

Um terceiro argumento é que um estádio é mais uma forma de lazer, e competirá com outras da cidade: o dinheiro que uso para comprar o ingresso para o time da cidade poderia ter sido para o cinema, para o parque de diversões. É somente uma questão de realocação de gastos, não de novos investimentos.

Após comentar sobre a viabilidade de megaeventos esportivos, qual o real impacto destes na economia de um país? Vale lembrar para os interessados: o esporte é parte muito importante de nós. Tomamos uma grande parte de nosso tempo estudando, lendo e constantemente se atualizando. Este fato pode nos levar a concluir que o esporte possui uma importância monetária muito maior do que achamos que possui.

Vejamos alguns números: reportagem da Placar1 afirma que o custo total dos estádios chegou a R$ 8 bilhões, e o custo total da Copa do Mundo, segundo o Portal de Transparência da Copa2, é de um pouco mais de R$ 27 bilhões. De acordo com reportagem do UOL3, o Produto Interno Bruto (PIB) total de 2014 é de R$ 5,521 trilhões. Ou seja, se fizermos uma conta simples, a Copa custa em torno de 0,4% do PIB brasileiro. Estádios, 0,1%. Jogos Olímpicos4, 0,6%. As cifras absolutas são gigantescas, mas não as relativas.

Por fim, existem sim argumentos positivos para se realizar megaeventos esportivos. A maior parte das arenas construídas visa ser multiuso. Caso seja feito um planejamento pós-Jogos, existem múltiplas alternativas de uso, dada as várias possibilidades de esportes que podem ser desenvolvidos. O Governo pode tomar esta tarefa e organizar o uso da arena para a região, realizando programas sociais e de inclusão esportiva.

Existe um retorno internacional “intangível” também. Caso um país tenha sucesso em realizar uma edição dos Jogos, sua imagem internacional melhora e pode até se consolidar. É o caso de países em desenvolvimento como China e Brasil, que procuram transparecer suas imagens de “países do futuro”.

O livro Soccernomics cita outro ponto positivo: para a Copa do Mundo de Futebol, a competição aumentou a felicidade geral dos habitantes da nação-sede. O programa de pesquisas Eurobarometer, realizado pela Comissão Europeia, pergunta anualmente a 1000 habitantes de diversos países europeus qual seu estado de felicidade. Os participantes devem responder entre muito satisfeito, satisfeito, não satisfeito, ou nada satisfeito com sua vida.

Analisando dados de 1974 a 2004, percebe-se que logo após uma Copa, o nível de felicidade aumenta consideravelmente. Não há correlação entre desempenho da equipe da nação-sede e felicidade. O evento por si só aumenta o nível do sentimento.

Apesar da ampla cobertura da mídia, o esporte não traz um impacto decisivo na economia de nosso país. Estragos foram feitos nos Jogos da Grécia, as quais custaram por volta de 5% de seu PIB. Além de prestígio, um governante deve avaliar a viabilidade de um megaevento esportivo de acordo com seu país. Análises devem parar de ser absolutas e se tornarem relativas. Mesmo assim, não podemos esquecer dos ótimos benefícios que estas competições podem trazer.

Por Albert Liu

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Confira na íntegra os artigos os quais inspiraram este post:
1- Placar:  Custo dos Estádios da Copa de 2014
2- Transparência.gov: Copa 2014
3- Uol Economia: Notícias
4- Uol Olimpíadas: Governo atualiza custo dos Jogos

Imagem Capa – Fonte: Governo do Rio de Janeiro (apud envolverde.com.br) / Adaptada
Imagem 2: Propriedade BPM Marketing Esportivo

 

 

 

 

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