A ascensão do futebol chinês

Você sabia? A FIFA reconhece a China como país origem do futebol. Por volta de 50 AD, na Dinastia Han, um jogo com dois times, que disputavam uma bola feita de couro e pelos, tinha como objetivo transpassar um espaço intermediário entre postes de bambu. Na época, ele era denominado Tsu’ Chu. Variantes eram jogos com apenas um gol e outros com 6 goleiros, mas sem detalhes quanto ao número total de jogadores. Era uma atividade com fins de treinamento militar e para identificar talentosos atletas.

Antes de falar sobre o caso chinês, vale a pena comentar brevemente os modelos esportivos europeu e norte-americano. O desenvolvimento esportivo na Europa possui forte ação do Estado.  Há um grande vínculo entre governo e clubes, onde grandes investimentos são feitos anualmente, principalmente no nível infantil, de categorias de base. A base do esporte europeu foi o amadorismo:  o esporte é muito mais um elemento de união social do que propriamente um meio de obter renda.

O modelo norte-americano, por outro lado, possui pouquíssima interferência do Estado. O desenvolvimento das modalidades dependia muito mais de indivíduos empreendedores. O esporte é sim, desde o início, visto como fonte de receitas e de lucro. Os campeonatos são organizados na sua maioria em ligas, ao contrário do formato europeu aberto, com acesso e rebaixamento.

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O esporte chinês, na atualidade, foi bastante influenciado pelos modelos dos países comunistas. Nestes, existe centralização total do Estado. Este cuida de todos os níveis de esporte, do distrital até o nível nacional.

A Fundação da República Chinesa, por Sun Yat Sen, foi um período de grandes crises internas e externas. Como externas, o grande destaque são as Guerras do Ópio, que permitiram finalmente a invasão e estabelecimento de potências europeias em território chinês, além da assinatura de desvantajosos acordos comerciais. Pelos anos em que ficou refém de potências estrangeiras, a China recebeu enorme influência na área esportiva, virando um grande “recipiente” de ideias estrangeiras.

O país convive, de um lado, com os esportes olímpicos, onde os centros de treinamento localizam-se nas maiores capitais do país e há enorme investimento estatal. De outro lado, persistem pela região rural uma série de esportes tradicionais, em que o Estado não dá nenhuma atenção. A China tentou ao máximo manter suas tradições, mas para se adequar as diretrizes de órgãos internacionais esportivos, o país teve de mudar muitas regras para poder competir internacionalmente.

O grande salto no futebol chinês começou na década de 90, na onda das grandes reformas econômicas do país. A Era Den Xiaoping é famosa por combinar elementos comunistas, como centralização das decisões ao Estado e ausência de democracia com elementos capitalistas, como privatizações, abertura a multinacionais e criações de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs)- zonas industriais preparadas para receber instalações de empresas nacionais e multinacionais- criando um ambiente de bastante concorrência.

Aproveitando a onda de transformações, o Estado profissionalizou o futebol. Foram introduzidas práticas de boa governança e o próprio governo afastou levemente seu papel direto. O futebol foi o esporte escolhido com maior prioridade de desenvolvimento, para aparecer ao mundo, por três razões: (1) possui apelo mundial, (2) possui uma Copa do Mundo de enorme prestígio, (3) atrai um número significativo de patrocínios e há um modelo de sucesso na Europa como referência. Neste esporte, também há mistura de elementos capitalistas e comunistas. De capitalistas, podemos citar o grande apoio de empresas privadas aos clubes do país, tanto nacionais quanto multinacionais. Isso já explica em parte as elevadas cifras oferecidas a jogadores brasileiros.
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As grandes decisões da Liga são tomadas pela Chinese Football Association (CFA). Ela detém o controle total dos ingressos: a compra é feita por um sistema próprio e toda a receita, ao final do campeonato, é distribuída de modo igual entre os clubes. Os contratos de transmissão também são negociados pela CFA e são divididos igualmente, atingindo cifras maiores a cada negociação. Clubes devem provar um determinado nível de receita para poder jogar suas respectivas divisões- evitando clubes insustentáveis. Para jogar a Primeira Divisão, clubes são obrigados a ter receita comprovada de no mínimo 1 milhão de yuans. Caso contrário, são rebaixados automaticamente. A maior parte dos clubes consegue facilmente a quantia via patrocínio.

A contratação de jogadores e staff estrangeiros- técnicos, preparadores físicos, dentre outros- não é novidade em países da periferia do futebol mundial. No capítulo “Core to Periphery”, no livro Soccernomics, os autores apontam que esta estratégia já vem ocorrendo em outros países como Japão, Coreia do Sul e Irã. Um bom exemplo é a contratação de Guus Hiddink (técnico holandês) como técnico da seleção da Coreia do Sul. Ele ficou famoso por levar sua seleção ao 4º lugar, na Copa sediado no mesmo país e no Japão. Zico também ganhou fama ao revolucionar o esporte em termos tanto técnicos (em seu trabalho na seleção japonesa) quanto de gestão.

O grande objetivo chinês é sediar uma Copa do Mundo em seu país e ganhar a competição.Os EUA tinham objetivo parecido e a condição imposta pela FIFA foi o desenvolvimento da modalidade até 2020. Por ser a atual segunda economia do mundo, fortalecer o futebol nos seus mais amplos setores pode ajudar a China a sediar este evento no futuro. Ao centralizar as principais decisões e aplicar um modelo de gestão esportiva capitalista, a China se vê capaz de realizar os maciços investimentos que vem inundando as esportivas brasileiras. O que parece ser só o começo. Será que o país conseguirá?

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“O ESPORTE CONSTRÓI MARCAS”

Por: Albert Liu – albertliu_1@hotmail.com

 Revisão: Matheus Gomes

Confira na íntegra os artigos os quais inspiraram este post:
1 – 
Indonésio – Muito Dinheiro e Presidente Boleiro
2- Ricardo Goulard recomenda China a brasileiros
3- Football Facts – Balls Evolution
4 – Clubes assinam contrato de U$ bilhões e liga chinesa ganha força
5 – Reportagem Globo Esporte:

6- Sport and Physical Education in China, de James Riordan e Robin Jones. 7- Soccernomics, de Simon Kuper e Stefan Szymanski

Imagens:
Imagem Capa: Esporte Uol (Adaptada)
Imagem 2- Globo Esporte
Imagem 3- Esporte Uol
Imagem 4- Istoé Independente
Imagem 5 – Propriedade BPM Marketing Esportivo

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